A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA COMO ATIVIDADE DE EXTENSÃO
Vicente Pleitez
Instituto de Física Teórica-UNESP
Rua Pamplona 145
01405-900, São Paulo, SP
É amplamente reconhecido que as atividades de uma universidade são de três tipos: Ensino, Pesquisa e Extensão (EPE). Ainda que o significado das duas primeiras é, mais ou menos claro, não podemos dizer o mesmo das atividades de “extensão universitária”. Em parte isso acontece porque novas necessidades aparecem como conseqüências do desenvolvimento das outras atividades universitárias. Por exemplo, uma das novas exigências da extensão universitária poderia ser a “divulgação da ciência” ou, como também é chamada, a “comunicação da ciência”. Esta é, de fato, uma atividade da própria comunidade científica, mas como no Brasil esta comunidade se concentra principalmente nas universidades, significa que o peso da comunicação da ciência é principalmente das universidades.
O World Science Fórum (WSF) realizado em Budapest em novembro de 2003 teve como objetivo dar uma oportunidade às diversas comunidades científicas para apresentar e discutir a ciência nos dias de hoje e começar os esforços para conseguir uma colaboração efetiva com as sociedades às quais a ciência serve ou deveria servir [BU03]. É interessante notar que entre os participantes do WSF havia cientistas, políticos, ONGs, pesquisadores da educação, líderes culturais, industriais e, representantes do
público geral. Foram discutidos temas como conhecimento e economia, ciência, qualidade de vida, meio ambiente, informação, etc.
Por que divulgar a o conhecimento científico? São várias as razões que fazem as atividades de divulgação da ciência uma das mais urgentes para os cientistas nos nossos dias. Segundo Werthein [BE04]
“A Declaração Sobre a Ciência e o Uso do Conhecimento Científico, adotada pela Conferência Mundial de Budapeste realizada pela UNESCO, reconheceu que o acesso ao conhecimento científico, a partir de uma idade muito precoce, faz parte do direito à educação de todos os homens e mulheres, e que a educação científica é de importância essencial para o desenvolvimento humano, para a criação de capacidade científica endógena e para que tenhamos cidadãos participantes e informados. A Declaração insiste em que a educação em ciência, sem discriminação e abrangendo todos os níveis e modalidades, é um requisito fundamental da democracia e também do desenvolvimento sustentável.”
O conhecimento científico é considerado como parte da cultura da sociedade, em vários sentidos. Por exemplo, saber qual é o estado de “nosso conhecimento” sobre a evolução do universo, o sobre as novas estruturas que dominam as escalas menores do espaço, no mundo das partículas elementares, é tão importante para uma pessoa educada, como saber qual o último lançamento de um conhecido escritor, do quadro de um renomado artista, etc.
Mas também a maneira como funciona a ciência implica uma “cultura científica” ou seja uma maneira de pensar, de enfrentar a resolução de problemas, que podem ser também os problemas do dia-a-dia. Além disso, o conhecimento científico é cada vez mais determinante para o bem-estar social, as inovações tecnológicas invadem o dia-a-dia das pessoas independentemente da sua capacidade econômica ou cultural. Neste último sentido a ciência, ou melhor o conhecimento científico, supera o fator cultural, é agora uma necessidade material.
Assim não há duvida da necessidade de “comunicar a ciência”. Para por alguns exemplos (sem pretender se exaustivos) podemos ter atividades de DC do seguinte tipo:
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Divulgação da ciência contemporânea.
Isso quer dizer a colocação de temas atuais das diversas áreas do saber científico. Apenas esse tipo de atividades já é multidimensional. Comunicar os resultados da ciência como ATIVIDADE VIVA tem público alvo de todo tipo etário, cultural e profissional. Todas as pessoas têm o direito de ser informadas dos fazeres científicos. Isso implica levar esses conhecimentos às crianças na escola, aos estudantes do colégio, aos profissionais liberais, aos professores universitários de especialidades diferentes daquelas que estão sendo comunicada. Mas também o operário, o taxista, a secretária, etc. Cada um desses públicos alvo implica uma linguagem diferente de parte do divulgador. Não se pode usar o mesmo discurso se estamos explicando os resultados da biologia molecular a um físico, ou a uma estudante de colégio, apenas para por um exemplo. O que dizer de uma palestra científica num Albergue? Como falamos de ciência com jornalistas? Vemos que apenas este tipo de atividade de DC possui um espectro ilimitado.
Por outro lado, não é o mesmo divulgar a ciência bem estabelecida, temas de física, química, biologia ou matemática que têm pelo menos suas linguagem científica bem determinada, que falar sobre a observação da violação da invariância sob reflexões especulares num determinado tipo de interação entre partículas elementares. Neste caso até os términos técnicos não tem uma tradução definitiva ou, em alguns casos, nem existe a tradução ou a formulação do conceito. Não é o mesmo explicar didaticamente a professores de nível médio as leis de Newton que o problema da compactificação das possíveis dimensões adicionais do espaço. Nenhuma das atividades é fácil, apenas as dificuldades são de tipo diferente.
É preciso ensinar o que a ciência conhece, e aquilo que ela não conhece ainda, quais os temas de pesquisa do momento e discutir, sempre que possível, se vale a pena ou não o tipo de pesquisa. Isto é mais importante em questões de grande atualidade como a engenharia genética. De fato, quando a UNESCO fala em DC parece que pensa em questões que o cidadão pode, e deve, ser informado para poder ter uma opinião melhor fundamentada que se ele estivesse completamente desinformado. Em temas de medicina, pessoas que tem algum parente próximo com uma doença grave têm em geral a tendência de se informar mais ao respeito dela, chegando até organizar associações que se dedicam ao apoio de outras pessoas com as mesmas dificuldades. Em alguns países esse tipo de associações estão sendo consultadas para discutir a liberação de verbas para as pesquisas na área de interesse. Normalmente essas pessoas são autodidatas mas os cientistas poderiam facilitar a vida deles se cursos, palestras ou outras atividades fossem organizadas para tal efeito.
Este tipo de DC pode ser organizada de diferentes maneiras. Dependendo do público alvo e do tema.
2. Divulgação da ciência estabelecida
Este tipo de atividade tem uma relação direta com atividades didáticas. Curso ou palestras para professores. Mas, e a dona de casa que quer saber mais sobre astronomia?
Este tipo de atividades tem como apoio em alguns casos atividades de laboratório.
Podemos ensinar as características básicas de ondas com experiências simples mas como fazer experiências com neutrinos ou ondas gravitacionais senão participando nas próprias experiências da ciência? Claro, essas dificuldades devem ser superadas, apenas frisamos a sua complexidade intrínseca.
3. Outras atividades
As atividades acima foram consideradas, implicitamente, como palestras, cursos, etc. Elas mesmas podem ser realizadas usando outros métodos, antigos como Museos e Centros de Ciência, o mais modernos como os usados em ensino a distância. Podemos pensar em cursos de DC, de qualquer extensão, para jornalistas ou professores, ou mesmo para qualquer pessoa que queira fazê-lo. Mas dependendo do público alvo o curso será organizado de maneira diferente.
O caso dos museus de ciência é um problema a parte. Este tipo de atividade não tem um discurso único. É uma família inteira a que visita simultaneamente a exposição.
Assim tanto o discurso como a metodologia tem de satisfazer diferentes estruturas. Por sorte já há iniciativas como a do Museu Exploratório de Ciências da UNICAMP.
Por outro lado pesquisa sobre a imagem que o público tem da ciência como a recentemente organizada por Vogt e Polino [VO04 devem ser sistematicamente realizadas. Isso permitirá que a comunidade científica tenha uma realimentação para seus esforços em levar a ciência à sociedade.
Alguns anos atrás, com a colaboração de uma jornalista do Estado de São Paulo, foi divulgado a possível realização de um curso de DC para jornalistas. Tivemos um retorno de perto de 20 jornalistas de todo o país. Ficou claro que seria difícil trazer a todos até São Paulo e que a única possibilidade é a vídeo-conferência. Por falta de recursos de multimídia na época e por falta de tempo (é uma atividade de muitas mãos), essa iniciativa não foi para frente. Mas o desafio ficou.
No IFT/UNESP temos 5 anos de trabalhar com Divulgação da Ciência. Primeiramente devemos mencionar que em 1999 começamos a atividade FÍSICA AO ENTARDECER (FAOE) a qual consiste em palestras dirigidas para um público geral ministradas por professores do IFT ou convidados da UNICAMP e da USP (ver a programação em
http://www.ift.unesp.br e logo ativar Física ao Entardecer). Depois, a partir de 2000, foi organizado um grupo de reuniões chamado GRUPO HAWKING formado por pessoas que assistem às palestras FAOE mas têm interesse em aprofundar seu conhecimento sobre assuntos de física moderna.
A experiência tem nos indicado que as atividades de DC tem aspectos comuns com atividades de Educação, porém existem alguns aspectos que não o são. Afinal, os objetivos das duas atividades são diferentes, mas por outro lado
divulgar também implica
ensinar.
Vejamos um exemplo recente. E se um aluno perguntar: Maxwell ou Weber? [SA04]
Sem dúvida essas perguntas desse tipo não têm, em geral,uma resposta fácil. Acontece que o problema não é porque a teoria de Weber foi abandonada mas por que a de Maxwell triunfou e é ensinada. Afinal são muitas as teorias rejeitadas pela experiência (a de Weber não seria a única alternativa) e não é possível estudar porque todas foram rejeitadas. É claro que é praticamente impossível estar informado de todas as propostas científicas que foram abandonadas porque os dados experimentais justificaram outras (a teoria de Abraham e outras propostas sobre o elétron foram abandonadas pela de Dirac e a QED). Mas podemos (e devemos) estar informados sobre por que ensinamos o que ensinamos. A teoria de Weber não foi eliminada por que UM experimento recente tenha mostrado que uma previsão dela não foi confirmada. O foi, entre outras coisas, pelo fato de que ela não é invariante relativista e essa invariância tem uma grande quantidade de concordância com os dados experimentais. Não só apenas as provas diretas mas, e principalmente, as indiretas. Ninguém desenha um acelerador ou um telescópio de neutrinos com a eletrodinâmica de Weber que não explica a dilatação do tempo! Por não ser invariante de Lorentz esta teoria não tem ondas eletromagnéticas, pior não tem o conceito de
campo com o qual a maioria da física do século XX foi construída, etc. Na Physics Today de julho aparece um artigo sobre os testes da invariância de Lorentz [PO04]. Ver também mais recentemente a Ref.[WO04] sobre testes da invariância de Lorentz. Assim, a pergunta não deveria ser por que não se ensina Weber mas, por que ensinamos Maxwell?
Este exemplo deixa claro que as diretrizes pedagógicas não são suficientes para a DC. Não basta saber ensinar Maxwell, devemos estar suficientemente informados de por que o fazemos. Esse é um papel para o pesquisador. Num primeiro momento o que importa é a informação, depois pode-se melhorar a pedagogia.
Seria possível que a DC fique fora de atividades de Extensão Universitária?, Aqui gostaríamos de manifestar o caráter diferente da DC das outras atividades típicas das universidades. Pode então ser considerada uma linha programática uma Área Temática ou mesmo uma quarta atividade de uma universidade além das tradicionais de Ensino, Pesquisa e Extensão.
Na estrutura das atividades de Extensão da UNESP não há, pelo menos de maneira manifesta, espaço para a DC. Isso pode ser facilmente evidenciado ao consultar no Apêndice A, onde mostramos as Áreas Temáticas da Extensão Universitária. As atividades de DC podem encaixar-se em “Cultura” ou “Educação”. No entanto, pelo discutido acima, acreditamos que esse tipo de atividades merece uma área temática própria: DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA ou algo equivalente. O mesmo acontece com as “Linhas Programáticas” que mostramos no Apêndice B. Algum tipo de DC pode ser vista como “Educação de Jovens e Adultos” mas isso não preenche completamente o espectro das atividades de DC.
Gostaríamos de propor, que as atividades de Divulgação Científica sejam reconhecidas como atividades diferenciadas, parte das Áreas Temáticas e suas respectivas Linhas Programáticas.
APÊNDICE A
ÁREAS TEMÁTICAS
Agrária/Veterinária
Comunicação
Cultura
Direitos humanos
Educação
Meio ambiente
Saúde
Tecnologia
Trabalho
APÊNDICE B
LINHAS PROGRAMÁTICAS
Assistência jurídica
Atenção a grupos de pessoas com necessidades especiais
Atenção integral à criança
Atenção integral à mulher
Atenção integral à saúde de adultos
Atenção integral à terceira idade
Atenção integral ao adolescente e ao jovem
Capacitação de gestores de políticas públicas
Comunicação escrita e eletrônica
Cooperação inter-institucional
Cooperação internacional
Cultura e memória social
Desenvolvimento do sistema de saúde
Desenvolvimento rural
Desenvolvimento urbano
Direitos de grupos sociais
Direitos de propriedade e patentes
Educação a distância
Educação ambiental
Educação continuada
Educação de jovens e adultos
Educação especial
Educação infantil
Educação profissional
Empreendedorismo
Ensino fundamental
Ensino médio
Esporte, lazer e saúde
Gestão de recursos naturais
Hospitais e clínicas universitárias
Incentivo à leitura
Inovação tecnológica
Mídia comunitária
Novas endemias e epidemias
Organizações populares
Pólos tecnológicos
Produção cultural e artística na área de fotografia/cinema e vídeo
Produção cultural e artística na área de música e dança
Produção e difusão cultural e artística na área de artes plásticas e artes gráficas
Produção e difusão de material educativo
Produção teatral e circense
Questão agrária
Rádio universitária
Saúde e segurança no trabalho
Saúde família
Sistemas integrados para bacias regionais
Televisão universitária
Trabalho infantil
Turismo
Uso e dependência de drogas
REFERÊNCIAS
[BU03] Ver
http://www.sciforum.hu
[ME02] A. L. Mellot e M. Singham, Two Views on Intelligent Desing, Physics Today 55 (6), 48 (2002).
[PO04] M. Pospelov e M. Romallis, Lorentz Invariance on Trial, Physics Today, julho de 2004.
[SA04] A. S. Santa’nna, E se um aluno perguntar: Maxwell ou Weber? Scientific American Brasil, 26, 20 (2004).
[VO04] C.Voght e C. Polino, Percepção Pública da Ciência, Editora da UNICAMP, Campinas, 2004.
[WE04] Jorge Werthein, Ensino de Ciências: Cada vez mais relevante, Cadernos ABRADIC:
http://www.eca.usp.br/nucelos/njr/abradic/cadernosabradic.htm
[WO04] P. Wolf, et al., Improved Test of Lorentz Invariance in Electrodynamics, hep-ph/0407232, a ser publicado na Phys. Rev. D.